: 🇦🇴 ENTREVISTA BOSS PROUD: "O Puzzle é o projeto onde consegui ser mais verdadeiro comigo mesmo"
Com 20 faixas que se interligam de forma cirúrgica, o rapper angolano Boss Proud lança o seu mais recente projeto, "Puzzle". Consolidando-se como uma das vozes mais autênticas do movimento, o artist trás uma obra densa que reflete a sua evolução lírica e maturidade no microfone. Entre a crueza das ruas e a sofisticação musical, Boss Proud abre o livro nesta entrevista exclusiva sobre os bastidores da sua obra-prima.
1. 🧩 Mano, o álbum chama-se Puzzle e tem ali 20 faixas. Um quebra-cabeças só faz sentido quando todas as peças se juntam. Qual é a história real ou a mensagem que tu quiseste montar com esse projeto? O que é que este álbum, como um todo, representa na tua vida e na tua carreira hoje?
BOSS PROUD: "O nome 'Puzzle' não foi escolhido por acaso. Um puzzle é feito de várias peças que, sozinhas, parecem não fazer muito sentido, mas quando se juntam contam uma história completa. Foi exatamente essa ideia que eu quis transmitir. Cada música representa uma fase, uma emoção, uma experiência ou uma maneira diferente de ver a vida. Há músicas mais pesadas, outras mais positivas, algumas mais pessoais e outras mais viradas para a motivação. Separadas, são apenas músicas. Juntas, mostram quem eu sou enquanto pessoa e enquanto artista. Este álbum representa muito a minha evolução. Não só musicalmente, mas também na forma como penso, como escrevo e como encaro os desafios. Sinto que é o projeto onde consegui ser mais verdadeiro comigo mesmo. Na minha carreira, o 'Puzzle' marca um ponto de viragem. É como dizer: ‘estas são todas as peças que me trouxeram até aqui’. Agora que o puzzle está completo, as pessoas conseguem perceber melhor a imagem inteira, e essa imagem sou eu."
2. 🤝 Tu trouxeste uns feats de peso para o álbum, tipo o Rafa G no remix de 'Nunca Entendi'. Como é que foi essa química no estúdio? Tu já escreveste o som a pensar na identidade dele ou a cena fluiu na hora quando se juntaram?
BOSS PROUD: "Quando pensei nesse feat, não foi pela lógica de juntar nomes grandes só para chamar atenção. Para mim, um feat tem de acrescentar alguma coisa à música e não apenas ao cartaz. No caso do Rafa G, eu já conhecia a identidade dele e sabia que a energia e a forma como escreve encaixavam perfeitamente na mensagem de ‘Nunca Entendi’. Por isso, quando o convidei, já tinha uma ideia de onde ele podia levar o som. Mas depois, no estúdio, houve espaço para a criatividade. Eu gosto que cada artista traga a sua visão, porque é isso que faz um feat ser verdadeiro. Não queria que ele soasse como eu, queria que soasse como o Rafa G dentro do meu universo. Acho que a química aconteceu precisamente por isso. Houve respeito pelo conceito da música, mas também liberdade para cada um deixar a sua marca. No fim, o resultado ficou mais forte do que teria ficado se cada um tentasse controlar tudo."
3. 🎛️ O álbum passa por várias vibes, desde cenas mais calmas com violão e piano até batidas com um punch mais agressivo. Na parte da produção técnica — escolha de beats, captação de voz e mixagem —, qual foi o teu maior desafio para garantir que o álbum soasse moderno, mas sem perder a tua identidade clássica no mic?
BOSS PROUD: "O maior desafio foi encontrar o equilíbrio. Hoje em dia é fácil fazer uma música soar moderna porque tens acesso a muita tecnologia e a muitas referências. O difícil é fazer isso sem perder aquilo que faz as pessoas reconhecerem a tua voz e a tua identidade. Na escolha dos beats, procurei que cada instrumental servisse a mensagem da música. Não escolhi beats só porque estavam na moda. Se uma faixa precisava de um piano ou de um violão para transmitir emoção, foi esse o caminho. Se precisava de mais energia e impacto, aí entravam baterias mais fortes e uma produção mais agressiva. Na captação e na mixagem, a prioridade foi manter a voz sempre à frente. Eu sou rapper e acredito que a voz é a principal ferramenta para contar uma história. Queria que cada palavra fosse percebida, sem a produção engolir a mensagem. No fundo, o objetivo foi esse: soar atual, mas continuar a soar a mim. Porque as tendências mudam todos os anos, mas a identidade de um artista é aquilo que faz as pessoas voltarem a ouvir a música daqui a cinco ou dez anos."
4. 🤫 A gente sabe que um álbum com 20 faixas guarda muitas histórias de bastidores. Conta aí pra rapaziada uma cena exclusiva ou uma curiosidade que ninguém sabe sobre o processo desse disco. Algum som quase ficou de fora ou mudou completamente de direção no último segundo?
BOSS PROUD: "O que pouca gente sabe é que um álbum destes nunca nasce exatamente como as pessoas o ouvem. Há músicas que foram reescritas várias vezes, outras mudaram de beat, outras até chegaram a estar quase prontas e acabaram por ficar de fora porque já não faziam sentido dentro do conceito. Como o álbum se chama 'Puzzle', eu fui muito exigente com isso. Não bastava uma música ser boa. Tinha de encaixar na imagem completa. Se uma faixa não acrescentava uma peça importante à história, por muito que eu gostasse dela, preferia deixá-la de lado. Acho que essa foi a decisão mais difícil durante todo o processo. Às vezes tens uma música forte, mas percebes que ela funciona melhor sozinha do que dentro daquele projeto. E é preciso saber abdicar disso. No fim, percebi que fazer um álbum não é só juntar vinte músicas. É construir uma narrativa em que cada faixa tem uma razão para existir."
5. 🌍 A gente faz o filtro do rap de toda a Lusofonia e vê o movimento crescer muito na conexão entre Angola, Portugal e Brasil. Como é que tu vês o espaço do rap angolano hoje nesse mercado global da língua portuguesa? Sentes que a malta lá fora já consome a vossa cena com o respeito que ela merece ou ainda há barreiras por quebrar?
BOSS PROUD: "Acho que o rap angolano já provou há muito tempo a qualidade que tem. Temos artistas, produtores e compositores capazes de competir com qualquer mercado da Lusofonia. Hoje já existe muito mais ligação entre Angola, Cabo Verde, Portugal, Brasil e Moçambique, e isso é positivo para todos. Mas acredito que ainda há algumas barreiras, principalmente ao nível da exposição. Muitas vezes não é uma questão de talento, é uma questão de oportunidade e de chegar às plataformas certas. Mesmo assim, sinto que o respeito pelo rap angolano está a crescer. Cada artista que consegue abrir uma porta acaba por abrir caminho para os que vêm a seguir. E é isso que eu também quero fazer: representar Angola da melhor forma possível e mostrar que a nossa música merece estar em qualquer palco, sem precisar de comparação com ninguém."

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