🇦🇴 MIDNIGHT: "Todas as músicas estavam a ser feitas dentro dessa narrativa: a da indignação e da não validação por parte das pessoas"

Ovelha Negra - Entrevista Midnight
1. O título do EP, "Depois de tudo que eu fiz", carrega uma forte carga de desabafo e afirmação de espaço na cena. Sendo tu o produtor que controla todo o processo técnico (captação, mix e master), como é que traduziste esse sentimento de "reivindicação" e de "bagagem acumulada" na escolha dos timbres e nas texturas mais escuras dos beats deste projeto?
MIDNIGHT: "Sobre esse ponto específico, o primeiro ponto: irmão, eu não trabalhei no EP com o objetivo de fazer um EP, estás a ver? Eu trabalhei mais no álbum e depois fui selecionando algumas músicas. Foi uma ideia que eu tive depois: selecionei algumas músicas para poder fazer um EP antes do álbum. Ya. Essas músicas todas estavam dentro do álbum, mas eu preferi separá-las para poder ter essa narrativa, estás a ver? Poder separar o 'Depois de tudo que eu fiz' do 'Eu não sou um artista'. Então, não houve propriamente uma escolha para o EP, mas sim para o álbum. A cena do EP acabou por combinar tudo. Todas as músicas do álbum estavam a ser feitas dentro dessa narrativa que eu estava a criar, estás a ver? A narrativa da indignação, da não validação por parte das pessoas. Então, foi mais por aí, por sinal."
2. Na faixa "Martelo", a produção divide os créditos com o HeyDivan e traz as vozes da Micha Star. É um som com uma linha de baixo agressiva e um ritmo muito vincado. Como funcionou o processo de cocriação desse instrumental no estúdio e o que é que tu procuravas extrair da dinâmica da Micha Star para contrastar com aquela atmosfera industrial?
MIDNIGHT: "Eu e o Divan, graças a Deus, temos uma relação muito top, porque nós estamos dentro da minha produtora, que é a Nexus. O Divan é um dos artistas que está comigo no estúdio dessa produtora. Então, nós trabalhamos muito, graças a Deus, os instrumentais. Foi numa sessão só eu e ele a fazer o beat. Nesse dia, fizemos uns quatro ou cinco beats juntos, e esse foi um dos mais quentes que nós fizemos. E, pá, eu queria um som com a Micha dentro do meu álbum e fui mandando algumas opções, só que eu não tinha pedido nenhuma. Então, depois dessa sessão, acabei por mandar esse beat e ela gravou quase que na hora. Ya. Foi assim, basicamente, o processo. Não teve muito trabalho e foi muito mais espontâneo do que outra coisa. Ya."
3. O EP conta com uma lista pesada de colaborações de diferentes cantos da cena lusófona (como o Xuxu Bower e o BabyWalk na faixa-título, ou o Kalahari Dié e a Phannykilla em "Desacelerar"). Sendo o produtor, o teu papel vai além de criar o instrumental — passa por dirigir as vozes. Como foi o desafio de adaptar o teu "signature sound" para dar o espaço ideal à identidade de cada um desses artistas sem perder a coesão do disco?
MIDNIGHT: "Mano, graças a Deus, são pessoas com quem eu já tinha trabalhado. Vamos dizer, para além do Xuxu, né? São pessoas com quem eu já trabalho há muito tempo. Tenho uma relação muito boa. Graças a Deus, deu-me uma oportunidade. Falei com ele, que eu fiz uma cena fixe, e ando a desenvolver umas cenas também, não só para mim, mas para ele. Então, eu expliquei o conceito do álbum primeiro. Tive de fazer o álbum todo para calhar a rifa com o Kalahari e com a Phanny. Essa é uma faixa que já tem mais de três anos, acho que tem três anos. É. Então, explicou o conceito para eles, e também o conceito do projeto. Mas faixas como 'Bem melhor' e acho que 'Desacelerar' também... Só faz isso porque, por mais que eu tenha explicado o conceito, eles fizeram não propriamente para o álbum, então são partes que são mesmo muito mais soltas. Eram para sair como singles, mas optei por colocar dentro do EP. Então, como nós já temos essa relação fixe com o pessoal — eu e os artistas —, eu deixo que eles façam a cena deles sem eu ter de estar todo o tempo lá. Eu gosto da identidade deles. Então, eu expliquei o que eu quero e o que não quero, e eles desenvolvem normalmente."
4. "Desacelerar" e "Pocopoco" mostram nuances diferentes de ritmo e velocidade dentro do projeto. Como engenheiro de som encarregue da mistura e masterização, que cuidados específicos tiveste na transição e no equilíbrio de frequências entre estas faixas para garantir que o ouvinte sinta a "longa madrugada" do EP, mantendo a dinâmica alta mesmo nos momentos mais lentos?
MIDNIGHT: "Mano, cada som é um som. Então, eu não me preocupo em dar uma identidade individual para uma música, porque ela em si pede. Então, não é uma preocupação minha, é uma necessidade mesmo. Cada som é um som. E, basicamente, eu tentei trazer um pouco dessa identidade que a música pede, misturada com aquilo que é a minha sonoridade, aquilo que eu gosto de ouvir, aquilo que eu gosto de fazer. Então, peguei nas melodias e nas vozes todas que o pessoal foi mandando e fui atribuindo, por exemplo, os efeitos das backs e das vozes principais consoante o beat ia desenvolvendo e a música ia pedindo. Foi mais por aí."
5. A fechar o EP temos "Bem melhor", com a participação da Ana AG, que traz uma vibração melódica e quase nostálgica que contrasta com o peso mais cru do início do disco. Esta escolha foi pensada desde o início para servir como uma espécie de "luz ao fundo do túnel" ou uma resolução conceptual para o fecho de ciclo que o título do EP sugere?
MIDNIGHT: "Basicamente, eu tive aquele desejo de colocar uma faixa mais romântica dentro do EP. O EP, a princípio, queria só quatro faixas, que são todas de... não é bem sobre sexo, são as mais alinhadas para baixo, que não o 'Bem melhor'. Mas eu queria uma faixa mais romântica, uma faixa de trazer isso, uma vibe mais melancólica, vamos dizer. Foi isso que 'Bem melhor' conseguiu fazer. Como essa é uma faixa que já tem três ou quatro anos — acho que quatro anos —, então, graças a Deus, casou muito com aquilo que eu pretendia para o álbum, para o álbum do EP. Acabei por colocá-la dentro do EP e acho que fechou com chave de ouro."

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